Marlyson enfrenta guerra e volta à Ucrânia por salário 5 vezes maior
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Rafael Reis

REPORTAGEM

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Para ganhar 5 vezes mais, brasileiro vai à Ucrânia e joga futebol na guerra

Marlyson aceitou voltar à Ucrânia para defender o Vorskla Poltava - Divulgação
Marlyson aceitou voltar à Ucrânia para defender o Vorskla Poltava Imagem: Divulgação
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

08/08/2022 04h00

Quando precisou encarar uma viagem de 18 horas sentado no chão de um trem de evacuação, acompanhado de centenas de mulheres e crianças angustiadas por estarem deixando a família para trás e sob trilha sonora de explosões de bombas e sobrevoos de caças, Marlyson não imaginava que retornaria tão cedo à Ucrânia.

Mas apenas cinco meses se passaram desde o episódio mais traumático da sua vida, e o atacante brasileiro de 24 anos está novamente em território ucraniano, preparando-se para o início da temporada 2022/23.

Não, a guerra ainda não terminou. Tropas russas continuam atacando diariamente alvos do país-vizinho e levando morte por onde passam. Mesmo assim, a primeira divisão do Campeonato Ucraniano será retomada no dia 23 de agosto.

A maioria dos jogadores brasileiros que atuava por lá (só no Shakhtar Donetsk, eram 12) optou por não voltar ao país. Amparados por decisão da Fifa, que os liberou de cumprir o restante do contrato devido ao conflito bélico, eles deram sequência à carreira em outros cantos do mundo.

Marlyson, que antes da guerra defendia o Metalist Kharkiv, também teve essa oportunidade. Ao retornar ao Brasil, ele passou a disputar a Série C pelo Figueirense. Só que aí surgiu um convite do Vorskla Poltava para retornar ao Leste Europeu. Mais do que um convite, uma proposta que ele julgou irrecusável.

"É claro que a gente sempre tem que colocar a saúde e a segurança em primeiro lugar. Mas é o melhor contrato que assinei na vida. É uma oportunidade de defender um dos maiores clubes da Ucrânia, o que valoriza bastante um jogador. E eles pagam muito para estrangeiros, especialmente para brasileiros. Na comparação com o que eu ganhava no Brasil, recebo agora cinco vezes mais", afirmou o atacante, em entrevista ao "Blog do Rafael Reis".

O difícil foi convencer seus familiares mais próximos, que há tão pouco tempo viviam a angústia de vê-lo desesperado tentando fugir são e salvo da guerra, que retornar à Ucrânia realmente era uma boa ideia.

"Tive que fazer uma grande reunião, com uma grande quantidade de pessoas. Juntei família, empresários e gente do clube e anunciei essa decisão. Na hora, foi um choque por conta de tudo que eu passei. Eles acharam que eu não deveria voltar, mas aí expliquei que essa transferência seria muito importante para mim."

Além do maior salário da sua trajetória nos gramados, um outro fator foi determinante para Marlyson topar o convite para voltar à Ucrânia e convencer seus parentes de que não estava completamente louco.

Diferente da temporada passada, quando morava e jogava em Kharkiv, um dos epicentros da guerra, agora o atacante está longe do front de batalha. A cidade onde está morando e treinando fica no extremo oeste do país, faz fronteira com a Eslováquia e não recebeu nenhum ataque das tropas russas desde o fim de fevereiro.

"Tenho ciência do que o país está vivendo, o conflito ainda não acabou. Eu não viria para cá para arriscar a minha vida. É claro que dá um pouco de medo, mas estou há um mês aqui e ainda não vi nada que pudesse me deixar preocupado."

Apesar dessa suposta sensação de segurança, o brasileiro já elaborou um plano de fuga, caso a situação piore, para não reviver as cenas que presenciou no primeiro semestre.

"Deixei avisado para os dirigentes do Vorskla: se tivemos qualquer notícia de que aqui corre risco de ser atacado, eu peço um táxi, faço uma viagem de quatro quilômetros até a Eslováquia, cruzo a fronteira e de lá pego o primeiro avião para o Brasil", concluiu.

A temporada 2022/23 do Campeonato Ucraniano não contará com a participação de dois clubes que eram de regiões que foram devastadas pela guerra (Mariupol e Desna Chernihiv).

Os jogos serão concentrados em apenas quatro ou cinco cidades-sedes, todas distantes das atuais linhas de combate, não terão presença de torcedores e contarão com segurança feita pelo Exército.

Mesmo assim, o número de estrangeiros na elite da Ucrânia despencou de 98 na temporada passada para 45. E é provável que uma parte considerável deles ainda se transfira para outros países nas próximas semanas.

No momento, dez brasileiros fazem parte de elencos de equipes ucranianas e são esperados na competição. O Vorskla Poltava, de Marlyson, concentra três deles. Além do atacante, também jogam por lá o lateral direito Felipe Rodrigues (ex-Sport) e o centroavante Gabriel Nazaário (ex-Figueirense).

Ao contrário dos clubes russos, que estão suspensos até segunda ordem pela Uefa, os times da Ucrânia estão inscritos nas competições europeias desta temporada. O Vorskla, por exemplo, disputou as fases preliminares da Conference League (e já foi eliminado pelo AIK, da Suécia). Já o Shakhtar está assegurado na fase de grupos da Liga dos Campeões.