O que revelam anotações do rei Henrique 8º da Inglaterra em livros da esposa | História | Galileu

Por Alec Ryrie* | The Conversation

É de conhecimento geral que Henrique VIII teve seis esposas. Mas o triângulo amoroso cataclísmico entre Catarina de Aragão e Ana Bolena recebe toda a atenção, enquanto as esposas de número 3 a 6 ficam para trás.

No divertido filme Os Amores de Henrique VIII (1933), do diretor Alexander Korda, Catarina Parr (a sexta esposa) é reduzida a uma piada descartável nos momentos finais da produção. O novo filme do diretor brasileiro Karim Aïnouz, Firebrand, é o primeiro a trazer protagonismo a Parr — e já não era sem tempo.

Bem na hora, surgiu uma nova evidência que dá vislumbres intrigantes do relacionamento de Parr com seu marido impulsivo. Sendo ela a descoberta de anotações de Henrique num livro escrito por sua esposa.

A rainha dos livros

Catarina Parr era diferente de suas cinco antecessoras. Aos 30 anos e duas vezes viúvo em 1543, o rei fez uma oferta que ela não pôde recusar, forçando-a a desmanchar outro casamento planejado. O cada vez debilitado Henrique finalmente tinha parado de ir atrás de jovens reprodutoras, procurando uma companheira em vez disso.

Catarina Parr, a sexta esposa do rei Henrique VIII — Foto: National Portrait Gallery
Catarina Parr, a sexta esposa do rei Henrique VIII — Foto: National Portrait Gallery

Parr navegou os emaranhados da política da família real com destreza, intermediando a reconciliação do rei com suas duas filhas, Mary e Elizabeth, que ele tinha declarado serem bastardas. Ela pode até mesmo ter ajudado a restabelecer o lugar deles na linha de sucessão.

Henrique com certeza acabou confiando no discernimento dela. Ao que tudo indica, parte do apelo era a devoção dela aos livros. Parr foi a primeira rainha inglesa a publicar um livro e a primeira mulher inglesa a publicar com seu próprio nome.

Os três livros dela foram exercícios de devoção, começando com uma coleção incólume de textos traduzidos chamada Salmos ou Preces (1544), tornando-se mais ousada depois. A Lamentação de uma Pecadora (1547) foi escrito durante a vida de Henrique, mas sua teologia era muito assertiva e protestante para ser publicada até que ele estivesse seguramente morto.

Salmos ou Preces, de Catarina Parr, publicado em 1544 — Foto: The Wormsley Library
Salmos ou Preces, de Catarina Parr, publicado em 1544 — Foto: The Wormsley Library

Os primeiros livros, no entanto, parecem ter encantado o rei. Ele fez suas próprias anotação na cópia de Salmos ou Preces da rainha: "Lembre este redator/quando você rezar/pois ele é seu". Ele sempre foi um devoto teatral e, em seus últimos anos — inquieto, com dor, cuidando de suas muitas humilhações —, se voltou para a religião com uma intensidade melancólica.

Sabemos que Henrique acreditava que a religião deveria significar para seus súditos: uma fé resistente, moralista, sem muito espaço para o perdão, cujo discurso era a obediência a ele. Mas e sobre sua fé pessoal?

É aí que entrar uma nova descoberta da pesquisadora canadense de literatura Micheline White.

A rainha Catarina encomendou algumas edições de luxo de Salmos ou Preces impressas em pergaminho, com uma pintura delicada feita à mão. Uma dessas, agora na Biblioteca Worsmley de Buckinghamshire, é cheia de anotações nas margens e marcações, pequeno desenhos de mãos cujos dedos apontam para passagens que o leitor quis enfatizar.

Ao comparar meticulosamente essas marcações com outras cuja origem conhecemos, White determinou que o leitor atento era ninguém mais ninguém menos que Henrique VIII.

O que revelam as anotações de Henrique VIII

Não é surpresa alguma que Henrique tenha se confortado com os salmos bíblicos. Eles supostamente eram trabalhos de David, um rei religioso e libertino, com que ele se identificava fortemente.

Anotações de Henrique VIII no livro publicado pela sexta esposa, Catarina Parr — Foto: The Wormsley Library
Anotações de Henrique VIII no livro publicado pela sexta esposa, Catarina Parr — Foto: The Wormsley Library

As passagens marcadas por Henrique revelam um pouco da extensão — e dos limites — da percepção que ele tinha de si. Sua doença e outros problemas ocupavam muito de sua mente: ele grifou orações para "eliminar vossas pragas...rejeite vossa fúria".

Ele também se interessava por orações que lamentavam o pecado e que pediam sabedoria a Deus. "Me dê um novo coração, e um espírito correto, e leve todos os desejos perversos e pecaminosos."

Os sentimentos revelam um homem que levava a sério tanto suas responsabilidades reais quanto seus dilemas pessoais e espirituais. Diferente de muitos narcisistas assassinos, Henrique VIII sabia que era um pecador que precisava de perdão. Mas sua revelação de que "meus pecados sejam expurgados" sugere uma tensão entre o entusiasmo com que ele buscou por graça e sua recusa em aprovar misericórdia — real ou divina — a seus súditos.

O rei Henrique VIII desenhava pequenas mãos nas margens apontando para as passagens que o interessavam — Foto: The Wormsley Library
O rei Henrique VIII desenhava pequenas mãos nas margens apontando para as passagens que o interessavam — Foto: The Wormsley Library

A rainha Catarina, cuja rima popular nos conta que "sobreviveu" ao seu casamento, mas por pouco. Em 1546, no último verão da vida de Henrique VIII, suspeitava-se — com boa razão — que ela cultivava um ninho de radicais religiosos na corte. Henrique se permitiu ser persuadido de que toda a conversa religiosa dela era, na verdade, uma tentativa de seduzi-lo a uma heresia.

De acordo com um relato tardio, mas bem informado, do martirológio John Foxe, ela ficou a par do perigo e imediatamente implorou pela piedade dele. Catarina protestou que ela, uma "pobre mulher tão inferior em todos os aspectos perante a ti", tinha apenas buscado por sua orientação religiosa.

"Nem tanto, pela Santa Maria", respondeu Henrique. "Você se tornou uma doutora, Cate, nos instrua (e aceitaremos) e não seja instruída ou direcionada por nós."

Rei Henrique VIII em 1540 — Foto: National Gallery of Ancient Art
Rei Henrique VIII em 1540 — Foto: National Gallery of Ancient Art

Não, ela protestou: ela somente o tinha distraído com uma conversa durante "essa época dolorosa de sua enfermidade" e, no processo, aprendeu muito sobre sua sabedoria. Com outra pessoa, isso poderia ficar forçado, mas ela conhecia o homem dela. "E é isso mesmo, querida?", respondeu Henrique. "Então perfeitos amigos somos agora novamente." O pedido de prisão dela foi cancelado.

Meses depois, o rei morreu. Infelizmente, a rainha Catarina casou com o homem por quem ela ficou esperando com uma urgência quase indecente — apenas para ser ignorada quando engravidou e foi deixada para morrer no parto. A história não é muito de finais felizes.

*Alec Ryrie é professor de História do Cristianismo na Universidade Durham, na Inglaterra. Este texto foi publicado originalmente em inglês no The Conversation.

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